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Da amoreira ao fio: história e patrimônio da seda em São Paulo – Segunda parte
Eloisa Martins Galvão – Analista de Conservação
Ainda são poucos os autores dedicados ao estudo da história e do patrimônio sericícola no Brasil. A maioria das publicações apresenta um panorama geral desde o século XIX - analisando a estrutura da atividade entre os eixos São Paulo e Paraná. No entanto, para além da perspectiva político-econômica, é importante observar os fatores sociais e educacionais vinculados à produção de seda.
Nesse sentido, acervos pertencentes à instituições culturais e edificações históricas que remetem à memória da sericicultura, contribuem para uma visão mais ampla sobre as dinâmicas geradas por essa atividade no território.
No entanto, diferentemente de países como a China, o Japão e a Itália, que possuem instituições e projetos voltados para a preservação do patrimônio cultural da seda, o Brasil ainda atua de maneira incipiente na salvaguarda dessa memória.
No caso de São Paulo, ainda que não existam instituições dedicadas exclusivamente à temática, foram identificados alguns patrimônios industriais tombados e conjuntos documentais que registram parte da história dessa produção.
Aspectos sociais e educacionais
Segundo o dicionário do Arquivo Nacional, as estações sericícolas mantinham um curso prático “para o ensino de noções de cultura da amoreira, de criação do bicho-da-seda e de fiação e tecelagem de seda” [1]. A duração desse curso seria de três meses para homens e de um mês para mulheres.
Apesar de ser considerada como uma indústria subsidiária a ser desenvolvida ao lado de outros serviços no espaço rural - empregando principalmente idosos, mulheres e crianças, a iniciativa do Serviço de Sericicultura “interessou diversos industriais na instalação de fiações nos pontos mais convenientes do interior”[2] [3].
Segundo dados do anuário de Estatística Industrial do Estado de São Paulo [4], é possível observar que apesar da capital abranger a maioria das fiações e tecelagens do Estado, cidades do interior, caracterizadas pela criação e fornecimento de casulos do bicho-da-seda, apresentaram crescimento entre 1928 e 1937.
Tabela 01 - Panorama da indústria têxtil paulista discriminada por localização (capital e interior)
Fiação e Tecelagem de seda
______________________________________________________________________________________________
ANO CAPITAL INTERIOR TOTAL
1928 34 7 41
1932 57 12 69
1935 119 23 142
1937 137 34 171
Paralelamente, o tema expandiu-se para a vida cotidiana integrando não apenas o ensino regular [5]:
A fim de difundir a sericicultura em toda a parte, por ser indústria caseira de imenso valor social, todos os professores públicos foram convidados a fazer um estágio de 5 dias no Serviço de Sericicultura, para aprenderem a técnica e a criação do bicho da seda e a ensinarem depois aos seus alunos.
Como os momentos de lazer [6], estando diretamente relacionada com as campanhas governamentais de fomento à produção:
(...) O governo Federal, consciente do valor que a sericicultura pode representar para a nossa economia, vem procurando incentivá-la quer facilitando a distribuição de mudas de amoreira e de óvulos do bicho da seda, quer amparando as iniciativas particulares, quer fazendo a propaganda do assunto em todo o território nacional. Ainda está sendo exibido nos cinemas do interior do país o filme ‘A Sericicultura no Brasil’, confeccionado por essa Diretoria, em que se focaliza a ação do Ministério da Agricultura em prol da indústria sericícola nacional.
O patrimônio industrial e os registros iconográficos
Em sua tese, Loureiro [7] apresenta um levantamento das empresas têxteis paulistas mapeadas no período da Segunda Guerra (1939-1945). Para além dos 21 estabelecimentos dedicados à sementagem, fiação e tecelagem de seda natural identificadas pelo autor [8], pelo menos outros sete já estavam em funcionamento nas décadas anteriores [9].
Apesar da importância desempenhada pela indústria sericícola em São Paulo, a preservação deste patrimônio é muito pequena comparada ao seu funcionamento ao longo do século XX. Recentemente, apenas dois conjuntos industriais foram identificados e tombados pelas instâncias municipais e estaduais, sendo eles:
a) O conjunto de bens imóveis remanescentes da S/A Indústria de Seda Nacional - Colégio Dom Barreto e a Chaminé, localizados na região industrial de Campinas [10] [11].
b) Os edifícios da Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira, localizada na Rua Joli, no bairro do Brás[12].
Segundo Neves [13], este cenário se deve ao fato de que “o patrimônio industrial tem sido objeto de recente e tímida preservação”. Um exemplo disso, é o reconhecimento de apenas 14 bens desta natureza pelo IPHAN, sendo a grande maioria vinculada ao período imperial. Outro fator, é a ausência de informações sobre a existência de objetos relacionados à produção, fiação e tecelagem de seda em instituições museológicas locais. A falta de recursos dificulta o desenvolvimento das coleções, identificação e conservação de remanescentes.
Nesse sentido, ainda que a literatura apresente de maneira superficial as relações entre os processos migratórios e o desenvolvimento da seda no litoral e no oeste paulista, é possível encontrar registros deste cotidiano, vinculados principalmente à migração japonesa.
É o que demonstra o relatório da Agricultura de 1942, sobre as terras de colonização do Litoral Sul [14]:
As chuvas abundantes do final de 1941 e princípio de 1942, prejudicaram bastante as plantações e colheitas. Muito embora, a produção foi animadora, tendo somente o 3° setor colhido (...) 130 quilos de casulos de sêda (...). A referida produção de casulos de sêda, enumerada é a inicial de uma plantação de 15.800 pés de amoreira.
Apesar do relatório de 1942 não apresentar os núcleos coloniais responsáveis pela produção de casulos, o documento de 1922 [15], cita a presença da colonizadora japonesa Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha (Companhia Ultramarina de Empreendimentos S.A), na zona do Rio Ribeira de Iguape.
Segundo Soares [16], a política de imigração tutelada japonesa no Brasil inicia em meados da década de 1920, quando o Estado japonês assume atribuições que antes não faziam parte de sua agenda:
O governo japonês fundou companhias como a Kaigai Kogyo Kabuschiki Kaisha (Companhia Ultramarina de Empreendimentos S.A. – K.K.K.K) em 1917, que era a companhia imperial para gerir a emigração no país.
No acervo digital do Museu da Imigração, é possível encontrar alguns registros do processo produtivo do bicho-da-seda na colônia de Registro, administrada pela K.K.K.K:


Além da K.K.K.K, outras empresas colonizadoras foram criadas para gerenciar a migração e auxiliar na administração de mais de 60 cooperativas agrícolas japonesas no Estado de São Paulo [17]. A principal delas foi a Sociedade Colonizadora do Brasil (Bratac) [18], “uma companhia de colonização semiestatal financiada pelo governo japonês e tinha como função principal formar colônias para os imigrantes japoneses”, fundada na região de Bastos, expandiu-se para outras regiões do Oeste Paulista e norte do Paraná.
Ao orientar questões econômicas, financeiras e políticas da colonização nipônica, essas organizações desdobraram-se em estruturas autônomas como é o caso da Fiação de Seda Bratac Ltda, criada em 1940 e em funcionamento até os dias atuais [19].

Na perspectiva atual, o Brasil é o 6º maior produtor de seda mundial, sendo o único em escala industrial no Ocidente. Apesar do estado do Paraná ser o principal produtor de casulos e fios de seda, a produção paulista chegou a cerca de 115333kg de casulos. Segundo Porto [20], a transição do eixo produtivo São Paulo-Paraná ocorre entre 1970 e 1980, com a substituição do modelo produtivo paulista por culturas de cana-de açúcar, pecuária de corte e a silvicultura.
Desta forma, fica claro que a memória e o patrimônio da seda em São Paulo apresentam remanescentes ainda pouco explorados e/ou difundidos, incentivando um mapeamento de coleções e edificações que reconstruam a história do bicho-da-seda e aprofundem as dinâmicas territoriais criadas pela relação das migrações e a produção sericícola no meio urbano e rural.
Referências bibliográficas
[1] BRASIL. Estações Sericícolas. Dicionário Primeira República. Angélica Ricci Camargo. Rio de Janeiro: 2021. Disponível em:< https://mapa.an.gov.br/index.php/dicionario-primeira-republica/1127-estacoes-sericicolas> Acesso em: 10 de novembro de 2025.
[2] DOIS grandes problemas resolvidos na pasta da agricultura. A Tribuna. São Paulo: edição 00001, 1944. Hemeroteca Digital.
[3] Podemos citar, como exemplo, as fiações de seda natural fundadas durante a Segunda Guerra Mundial nas cidades de Birigui, Limeira, Cafelândia, Guararapes, Campinas e Brotas - regiões marcadas pelo histórico de imigração e no desenvolvimento da produção do bicho-da-seda.
[4] ESTATÍSTICA industrial do Estado de São Paulo. Disponível em: <https://bibliotecadigital.seade.gov.br/collections/118?collectionId=118&page=1>. Acesso em: 22 abr.2026
[5] DOIS grandes problemas resolvidos na pasta da agricultura. A Tribuna. São Paulo: edição 00001, 1944. Hemeroteca Digital.
[6] INFORMAÇÕES estatísticas e econômicas. República. Santa Catarina: edição 00414, 1935. Hemeroteca Digital Catarinense.
[7] LOUREIRO, Felipe Pereira. Nos fios de uma trama esquecida: a indústria têxtil paulista nas décadas pós-depressão (1929-1950). Dissertação (Mestrado em História Econômica) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007, p.278-279 Disponível em:<https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8137/tde-11072007-102513/pt-br.php>. Acesso em: 05 abr.2025
[8] Fiação de Seda BRATAC (1940), em Bastos; Setificio Glória (1943); Tecelagem Saturnia S.A (1943); Fiação de Seda São Paulo S.A (1944); Indústria de Seda Fidasil S.A. (1944), em Birigui; Sementagem e Fiação de Seda de Cafelândia S.A (1944), em Cafelândia; Fiação de Seda Guararapes S.A (1944), em Guararapes; Fiação de Seda Meirelles S.A (1944), em Campinas; Tecelagem Aida S.A (1944); Cia Industrial de Sericultura - CIS (1944), em Sorocaba; Fiação de Seda Biriguiense (1944), em Biriguí; S.A Setifício Guaiumbé (1945), em Lins; Tecelagem Columbia S.A (1945); Fiação de Seda Centenário S.A (1945), em Brotas; Incatêxtil S.A (1945); Fiação de Seda Bandeirantes S.A (1945); Seda Campineira S.A (1945), em Campinas; Tecelagem de Seda Parisiense (1946); Têxtil José A.Kain (1947) e Tecidos finos Bocater S.A (1949).
[9] Fábrica Fioseda (1928), em Cordeiros; Fábrica Andraus (1928), em Bragança; S.A Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira (1911), na capital; S.A Tecelagem de Seda Lavínia (1928), Indústria de Seda Nacional (1922), em Campinas; Tinturaria Brasileira de Sedas (1935) e a Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha (1927), no Vale do Ribeira.
[10] CAMPINAS. Prefeitura Municipal. 0006/2009 - Conjunto de bens imóveis remanescentes da S/A Indústria de Seda Nacional - Colégio Dom Barreto. Secretaria de Cultura e Turismo, 2023. Disponível em: https://portal-adm.campinas.sp.gov.br/node/54511. Acesso em: 22 abr. 2026.
[11] CAMPINAS. Prefeitura Municipal. 0002/2010 - Chaminé - Remanescentes da S/A Indústrias de Seda Nacional. Secretaria de Cultura e Turismo, 2023. Disponível em: https://portal-adm.campinas.sp.gov.br/node/54503. Acesso em: 22 abr. 2026.
[12] SÃO PAULO. Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. Resolução SC-30, de 5-4-2018. São Paulo: DPH, 2020. Disponível em: https://drive.prefeitura.sp.gov.br/cidade/upload/sc30pdf_1582227578.pdf. Acesso em: 22 abr. 2026.
[13] NEVES, Deborah Regina Leal. Tecendo a história de São Paulo: tecelagens como patrimônio cultural. USJT. Arq.Urb, número 26, setembro-dezembro de 2019, p.67
[14] SÃO PAULO. Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio. Relatório da Agricultura (1941). São Paulo: Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio, 1942, p.520.
[15] SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Agricultura, Commercio e Obras Publicas. Relatório da Agricultura (1922). São Paulo: Typographia do Diario Official, 1922, p.101-102.
[16] Soares Filho, Paulo José. A Política Imigratória Tutelada Japonesa e a ação da Bratac em Pereira Barreto (SP) 1927-1942. Maringá: 2010, p.24.
[17] Soares Filho, Paulo José. A Política Imigratória Tutelada Japonesa e a ação da Bratac em Pereira Barreto (SP) 1927-1942. Maringá: 2010, p.37.
[18] Soares Filho, Paulo José. A Política Imigratória Tutelada Japonesa e a ação da Bratac em Pereira Barreto (SP) 1927-1942. Maringá: 2010, p.31.
[19] Considerada a única produtora de seda natural em escala industrial no Ocidente, contando com duas unidades fabris instaladas na cidade de Bastos, em São Paulo e na cidade de Londrina, no estado do Paraná.
[20] PORTO, A.J. Histórico e evolução do módulo produtivo na Sericultura brasileira. Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária e Zootecnia do CRMV-SP. São Paulo: Conselho Regional de Medicina Veterinária, v.17, n.1, p.40-49, 2019. Disponível em: <https://www.revistamvez-crmvsp.com.br/index.php/recmvz/article/view/37842/42528>. Acesso em: 15 mar.2025.